Jesus, as baleias azuis e o quadrado

29 Novembro 2008

A idéia de organizar um blog a oito mãos, além das duas do convidado do mês, começou meio na base da piada, mas algumas breves discussões depois, está aqui, bem na sua frente. Lembra um pouco aquela música que dizia “Tudo comoçou como uma brincadeira e foi crescendo, crescendo, me absorvendo…”.

Confesso que achei a idéia ótima, mas me preocupei um pouco no início. Afinal, imagine só a responsabilidade de dividir este espaço com quatro outras pessoas, sendo três delas blogueiros “de escol” – basta ler os respectivos blogs – e a quarta um(a) convidado(a) que, para ter sido escolhida por eles (e por mim também, vá lá), tem de ter grandes predicados. Minha maior preocupação sempre foi: não posso escrever bobagens! E talvez tenha sido por isso que demorei tanto para, finalmente, botar o bloco na rua e escrever este post (e também porque o mês está acabando e o pessoal estava me cobrando, às vezes até ameaçando), já nos acréscimos do mês que termina.

De qualquer maneira, estou contente de fazer parte do Cada um no Seu Quadrado, e prometo que vou cuidar do meu direitinho. E estou contente porque a Deise aceitou ser nossa colunista inaugural. Só fiquei meio decepcionado porque ela mais uma vez nos privou de falar sobre a importância do ciclo menstrual das baleiaz azuis no Mar Vermelho (um dia ela fala), mas, em conpensação, nosso Blog começou com um texto fantástico.

E sobre ele acrescento: Jesus tira férias, sim! Como não?! Já pararam para pensar sobre tudo o que milhões de pessoas, todos os dias, pedem para Ele (no caso, Ela)? É muita coisa, a pessoa se estressa! Um períodozinho de descanso é importante. E imaginem só o drama: se Jesus atendesse todos os pedidos de ganhar na loteria, casar com fulano(a), passar de ano na escola… imaginem administrar todas as preces, todas as bênçãos, todas as pragas… e imaginem só ser, ao mesmo tempo, o Pai, o Filho e o Espírito Santo? Tem de ter critério!, senão vira bagunça.

Mas não ficamos desamparados. Temos Deise, que fez uma estréia e tanto. E eu, pessoalmente, tenho certeza de que ainda vamso aproveitar muito com este Blog no futuro. E com a presença de Jesus, que, a esta altura, já está de volta, e ainda vai aparecer aqui, e estará no meio de nós.


Janela Indiscreta

13 Novembro 2008

Querer e não querer exposição ao mesmo tempo: eis a questão.

O ser humano deve ter algo de esquizofrênico na sua essência.  Sempre foi um pouco esquisita essa relação dele entre o público e o privado, o social e o íntimo, o que é dos outros e o que é dele, a república e a monarquia absolutista.  O ser humano sempre teve muita dificuldade de entender essas coisas.  Vai ver é por isso que o comunismo nunca saiu do papel na sua pureza – permanece um conceito utópico.

Para você ver: experimente reunir um grupo de crianças.  Um grupo pequeno, com umas cinco ou seis, com aproximadamente seis anos.  Dê alguma coisa a uma delas e diga que não é para ela, mas para todas (melhor ainda se for brinquedo: diga que é para todas brincarem juntas).  Duvido que uma das crianças (provavelmente a que recebeu o brinquedo) não vai começar a ditar as regras da brincadeira e, no fim, como argumento, vai dizer que foi ela quem ganhou o brinquedo.

A mesma coisa acontece com os cães, que dificilmente conseguem partilhar seus brinquedos e pratos de comida.  O que é deles, é deles.  É assim que a banda deles toca.  O comunismo não está em suas veias.  Eles podem até fazer caridade, mas a caridade não desnatura o capitalismo que compõe a sua carga genética.

Lidar com a coisa pública é difícil.  Requer uma elevação do estado mental que poucos seres humanos conseguiram alcançar e muitos se recusam a tentar alcançar.  Mas escrever um blog e torná-lo público?…  Permitir que qualquer pessoa comente qualquer coisa?  Sem moderação, sem controle de comentários, assumindo as conseqüências de cada palavra que ali consta?…  Quanta diferença.

A internet veio para devassar a vida das pessoas, por mais que ela não seja acessível a todas elas (isso é fato, embora não venha ao caso discutir isso).  Você pode descobrir várias coisas sobre qualquer pessoa, independentemente da vontade dela de se expor ou não, simplesmente jogando o nome completo dela entre aspas no Google.

Janela Indiscreta, de Hitchcock

"Janela Indiscreta", de Hitchcock

Hoje, nada mais é estritamente privado.  Quem mora em conjunto residencial sabe disso: tem sempre um vizinho vendo lá dentro do seu apartamento pela varanda dele, uma vizinha fazendo fofoca e o porteiro, então, nem se fala.  Nem mesmo aquele segredinho que você guarda a sete chaves, no seu íntimo, é só seu.

Resta, então, decidir você mesmo entregar isso aos outros, e assumir as conseqüências desse ato, ou esperar que alguém (não) o descubra.


Contradição

10 Novembro 2008

A idéia de um blog – já comentada aqui pelo Leandro e mesmo pela Deise, nossa primeira convidada – é abrir o jogo. Mentindo, contando a verdade, falando besteira, inventando histórias que poderiam ter acontecido ou que jamais aconteceriam, a idéia é escrever. E quem escreve deseja – em parte – uma platéia. Por menor e mais seleta que seja, ninguém quer escrever para o futuro, para a posteridade, ou para si mesmo. Quem o quer escreve em um diário, tranca e esconde no armário, não publica na internet num endereço que pode ser rastreado pelo google ou qualquer outra ferramenta de busca. Muito menos o publica em um blog e depois sai fazendo propaganda deste blog em sua página no orkut, em blogs de amigos, em mesas de bar, em pós-graduações e mba’s. Quem não quer platéia, na melhor das hipóteses, não escreve – opta por falar sozinho, porque assim guarda os segredos e não precisa mentir.

Mas escrever em um blog, por mais interessante e exibicionista que seja (sim, eu me sinto em uma vitrine), tem seu lado ruim. Porque exibir-se por opção eu considero algo intrinsicamente bom – não sou masoquista, então me exibo aqui porque quero.

Escrever em um blog traz a fama – ou não. É essa parcela de incerteza que causa parte dos problemas. “Por que ele tem 251 visitas e eu só tenho 15?”, “Será que eu escrevo mal?”, “Por que ela comenta o blog dele e não o meu?”, são perguntas recorrentes, das quais poucos fogem.

Eu fujo das perguntas por um motivo simples: eu fujo de blogs também. Eles ficam populares, e eu corro.

O motivo? Simples. Não gosto de como todos ficam amigos enquanto comentam. Não gosto da sensação de falsa intimidade – ou mesmo da intimidade procurada. Não gosto da sensação de estar sendo perseguida por desconhecidos. Não gosto.

Em suma, meu blog é um diário aberto, é um diário que eu mostro pros amigos e que, por isso mesmo, pode conter inverdades e exageros. E é um blog disponível para desconehcidos, mas com tantos conhecimentos particularizados que um dia eles enchem o saco e desistem. Eu escrevo, sim, sobre o Flamengo (pra caramba), sobre o trabalho (demais), sobre os amigos (todos). Quem é vascaíno, quem não conhece a Petrobras e quem não participa de pelo menos dois círculos de amizades meus simultaneamente simplesmente não entende metade dos assuntos.

Mas eu escrevo principalmente para mim. E gosto da sensação de intimidade criada com meus amigos, os de verdade, não os angariados com o blog.

Porque, no final da história, eu escrevo tudo e qualquer coisa, tudo e mais um pouco, tenha acontecido ou não, seja verdade ou não. E só quem me conhece vai conseguir comentar os assuntos da maneira correta – seja para me mandar pastar, seja para dizer que não vai mais ler tantos posts sobre o Flamengo, seja para oferecer colo.

Os outros – aqueles que entram e falam “Legal seu blog! Entra no meu!” -, desses eu rio. Mas lamento não ter a força de vontade de entrar aleatoriamente em qualquer lugar para fazer propaganda. Porque, vocês sabem, a propaganda é a alma do negócio, e se depender dela, meus caros, no que me diz respeito este blog está fadado ao fracasso.

Ainda bem que temos o David e seus 20 leitores assíduos…
Eu sou territorialista. Estou presa à minha terra, resisto a mudanças, e meu fervor expansionista não é lá essas coisas. Se deixarem por minha conta, seremos nós e mais um punhado de leitores – fiéis, simpáticos e conhecidos, que daqui a uns 4 anos entrarão dando bom dia e perguntando pelos nossos filhos.

Deixo as grandes navegações com vocês. Eu cuido de nosso reino enquanto isso.
Afinal, quem falou que isso aqui era uma democracia?


Quem pisa fora do quadrado…

8 Novembro 2008

Isso é o que eu chamo de colocar cada um no seu devido quadrado…

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E o Gutemberg com isso?

2 Novembro 2008

Certa vez, eu cheguei a acusar a internet de ser a nova enciclopédia.  Disse isso quando descobri que ela guardava, nos seus cyberconfins, até mesmo sites pornográficos para cegos (na verdade, narrações de cenas de sexo feitas com a expressividade e a vibração do engenheiro da McLaren após uma vitória de Lewis Hamilton).

simbolo da invenção da imprensa

A Bíblia de Gutenberg: símbolo da invenção da imprensa

Cada vez mais eu acho que tenho razão.  Todo conhecimento pode ser achado aqui (à exceção dos ultra-secretos dados de empresas e Estados, mas isso não conta), bastam duas coisas: Google e paciência.  Nada mais!  Pouco a pouco, os livros deixam de ter a importância que tiveram em outros tempos, principalmente a partir da invenção da imprensa.

Naquela época, a imprensa foi uma invenção tão revolucionária quanto é, para nós, a internet.  De um dia para o outro, o que só os monges sabiam, porque eles, em especial, guardavam os antigos manuscritos em suas bibliotecas.  E os transcreviam…  Como será que o livro impactou aquela sociedade?  Acredito que da mesma forma, quero dizer, com a mesma intensidade que a internet impacta esta sociedade.

De uma hora para outra (naquela época, talvez tenha sido de um século para o outro), tudo o que era conversado, vivido e contado, passou a ser escrito e repetido em livros.  Surgiram os escritores, os poetas e os pensadores.  Antes da imprensa, eles não existiam.  As histórias eram contadas boca-a-boca, sempre à base do relacionamento interpessoal.  Só se podia aprender algo com contato pessoal com o detentor do conhecimento.

Com a imprensa, popularizou-se o conhecimento.  Era possível aprender com o contato com os livros, pouco importando quem era o autor, sua fisionomia, nacionalidade, distância física…

A internet potencializou essa realidade.  Se antes era necessário esperar dias por uma carta, hoje é preciso esperar segundos, quando muito, para receber um correio eletrônico.  Se antes era necessário ir a uma biblioteca, hoje basta ligar o computador.  Se antes era preciso viajar horas para matar as saudades, hoje basta ter uma webcam para ver a pessoa amada.

Se isso difiiculta ou ajuda os relacionamentos interpessoais, eu não sei.  Cada um deve ter a sua realidade, cada um deve viver a sua particularidade.  Deve haver gente deprimida e gente alegre nesse mundo, compartilhando suas tristezas, mágoas e alegrias na rede.  E, provavelmente, essa deve ser a grande graça do negócio.  Deve ter sido assim também na época da inveção da imprensa.


Os impactos das férias de Jesus na internet

1 Novembro 2008

Não faz muito tempo, na verdade, umas duas ou três semanas, recebi uma proposta inusitada. Quatro colegas me convidaram para escrever um texto para um blog feito a oito mãos e quatro cabeças. Obviamente, meus membros foram desconsiderados, mas não encarei tal fato como desprezo ou possível constatação de que talvez eles não soubessem contar direito.

Entendi prontamente que os convidados não faziam parte do CADA UM NO SEU QUADRADO. Entendi também só ter a oportunidade de ser a primeira convidada porque Jesus recusou. É, Jesus foi convidada para estrear neste empreendimento sócio-tecnológico, mas teve sua inestimável participação postergada, por conta de merecidas férias, para o mês de dezembro (fazendo muito sentido, mês do Natal). Enfim, deixo esta explicação para a própria, mas tudo que precisam saber agora é (i) fui a segunda opção, (ii) estou tendo o prazer de substituir Jesus, (iii) Jesus escreverá no próximo mês e (iv) Jesus é mulher.

Superadas as explicações preliminares, quando me dei conta da proposta, percebi a necessidade de produzir um texto sobre um tema livre. Atentei também para a esperteza das quatro cabeças idealizadoras do CADA UM NO SEU QUADRADO: os incríveis tiveram a brilhante idéia de fazer um blog em conjunto, mas não tiveram a luz sobre assuntos. Certamente algum diálogo do tipo “vamos fazer um blog juntos? Sim, ótima idéia! E sobre qual assunto escreveremos? Ah, não sei, chamamos alguém para escrever sobre qualquer coisa!” deve ter acontecido em algum boteco do Rio de Janeiro, muito provavelmente na Lapa.

Juro ter pensado em discorrer, mais uma vez, sobre a importância do ciclo menstrual das baleias azuis nas águas do mar vermelho.

Ultrapassada a constatação de ser a segunda opção e de estar sendo usada por quatro cabeças e oito mãos, não pude parar de pensar nos possíveis motivos para as pessoas deixarem suas impressões numa rede mundial, a qual todos poderiam ter acesso.  

Antes de mergulhar nesta empreitada, senti a obrigação de fazer pesquisa de campo ou, como sempre dizem os atores, “um laboratório”, no universo dos blogs. Comecei pelas páginas dos integrantes do CADA UM NO SEU QUADRADO e confesso a surpresa. Os colegas e muitos dos sites visitados possuem verdadeiras pérolas (textos, impressões e imagens) sobre os mais variados temas. Realmente, se inteirar de qualquer tema (seqüestro de Eloá, futuro de Gabeira, milionésima internação de Amy Winehouse, sexo, práticas anoréxicas, massagens caseiras para cabelo, poder regenerativo da rosa mosqueta, etc.), usando blogs como fonte, pode ser uma experiência incrível.

Entretanto, nesta oportunidade, além de aprender curiosidades sobre muitos temas, me senti só e um pouco egoísta.

Apesar de todo o avanço tecnológico, facilitando integração com pessoas (sem se esquecer dos muitos blogs de animais e plantas) das mais diversas nacionalidades, crenças, condições sócio-econômicas e visões políticas, senti solidão e um tom nostálgico.   

Na contramão de toda facilidade de comunicação, senti com a leitura dos sites visitados certa dificuldade dos seres humanos (sem esquecer os animais e plantas internautas) em conversar (falar e escutar, não só se escutar na presença de outrem). Contudo, percebi a ululante necessidade de registrar sentimentos e pensamentos, mesmo que outros não leiam, nem respondam ou comentem. Só não entendi um detalhe: blog é diário ou é conversa? Se for diário, não era para ser pessoal? Por que publicar algo pessoal (alguns blogs visitados eram ultra personalíssimos….)? Como dizem os advogados, qual a natureza do blog?

Em um mundo com aproximadamente seis bilhões de cabeça e doze bilhões de mãos (sem ignorar as exceções), e-mail, telefone, carta convencional, proximidade das moradias, centenas de milhares de vôos, vans e outros modais, as interações sociais não estão ocorrendo a contento?

Ou, de repente, está todo mundo se comunicando muitíssimo bem e o problema é único e exclusivamente meu?! Não descarto a possibilidade de a dificuldade ser minha e eu estar projetando nas minhas percepções dos blogs.

Em resumo, as férias de Jesus me fizeram atentar para o fato de ser a internet, além de um grande depósito de informação de toda sorte, um receptáculo de sentimentos e estado anímico da coletividade. Também passei atentar para a qualidade da minha integração (com pessoas, animais e plantas).