Jesus – messias ou não – poderia nascer agora, em 25 de dezembro de 2008, e novamente ninguém entenderia nada do que ele falou.
Assim como diversas outras pessoas, com maior ou menor influência sobre maior ou menor parte da humanidade, ele apenas disse que deveríamos ser um pouquinho mais amigos dos outros seres humanos, sejam aqueles próximos, sejam aqueles não tão próximos. E isso independe de opção religiosa – qual religião prega a destruição do próximo?
Ele, assim como Gandhi, como Buda, como Martin Luther King, como minha avó (por que não?), apenas demonstrou que, sim, dá trabalho ser melhor do que somos, dá trabalho tentar melhorar, mas pra que ficar aqui então? Pra ver a banda passar?
As pessoas esquecem o poder que têm sobre a vida umas das outras.
Durante este ano, enquanto eu ajudava um amigo, olhei para o lado e vi uma outra pessoa me ajudando a ajudá-lo, em silêncio. A pessoa não falou nada e não fez nada além de demonstrar que estava ali caso eu precisasse. Ela me ajudou mais até do que imagina, e eu nunca esqueci. Na verdade, naquela hora, eu percebi como um gesto simples, despretensioso, livre de qualquer intenção escondida, sem qualquer vinculação religiosa, pode ser muito mais importante do que pregações de todo tipo.
É por essa e outras que eu parei de me preocupar com a opção religiosa das pessoas.
Quando eu era criança, lembro de alguém ter me contado aquela história de Jesus em que ele diz que devemos perdoar 490 vezes (70×7). Lembro que eu fazia as contas e pensava “Puxa, mas porque ele não falou que deveríamos perdoar sempre?” até o dia que minha mãe me explicou que a idéia era acostumar a pessoa a perdoar: no início, ela fazia as contas, até que ela acabaria se acostumando e o número de vezes seria esquecido.
Pois eu conheço algumas pessoas que mantêm a conta – pra quando chegar no 490 poderem parar de perdoar sem qualquer remorso.
No final, acaba sendo muito cômodo esperar o dia 25 de dezembro para ser bom, gentil, atencioso. A sociedade cobra isso, nossos amigos esperam isso. E todos esquecem os outros 364 dias e 6 horas que cada ano tem. Não, deixemos os 364 dias e 6 horas de lado. Pensemos em estender essa prática ao dia 24 de dezembro, ao dia 31 de dezembro, ao dia 1o de janeiro. Tentemos aplicá-la ao dia do nosso aniversário – quando estamos naturalmente mais felizes – ou ao dia dos aniversários das pessoas que amamos. Quando repararmos, teremos um mês de bondade obrigatória – e acabará virando hábito ser gentil com as pessoas.
No final das contas, Jesus – a figura histórica mesmo – mostrou principalmente que se você quiser mudar alguma coisa, tem que começar devagar, aos poucos, e dependendo do que queira mudar você terá que convencer muitas pessoas de que você está certo. Mesmo assim, a probabilidade de você não convencer ninguém é grande.
Igualmente grande deve ser sua força de vontade.
Mas se você for como eu – e tiver certeza que os momentos grandiosos da vida não levam o seu nome – fique com os pequenos momentos, valorize as pequenas presenças, os pequenos gestos, o sorriso.
A vocês, meus amigos, um feliz natal, hoje, amanhã, daqui a uma semana também.
Obrigada pela companhia barulhenta de todos os dias e pela companhia silenciosa nas horas que eu precisei.
25 Dezembro 2008 ás 12:45 am
Concordo plenamente, Sarita. Ser solidário e gentil independe de religião ou de ocasião. Talvez devêssemos realmente exercitar mais nossas virtudes. O amor ao próximo e a capacidade de perdoar não podem ser tarifados.
O Dia de Natal é muito pouco para a farsa da solidariedade.