Mudanças

27 de Janeiro de 2011
O comodismo dificulta a mudança

O comodismo dificulta a mudança

Divergindo da maioria, que preferiu falar sobre a legitimidade e a real existência do altruísmo, apego-me à parte do texto da DaniH que falou sobre a dificuldade de implementar mudanças.  E eu falo de qualquer tipo de mudança: de casa, de carro, de bicicleta, de marido/mulher, de roupa, de atitude, de trabalho…  Mudar é difícil.  Aliás, acho que vale a pena repetir as palavras de DaniH sobre o assunto: “Gente, ninguém muda. Mudanças são processos complexos e dolorosos. Não é passeio no parque. Mudanças de comportamento, mudanças de postura, modificações de hábitos. São coisas que estão fora do controle de terceiros. Cabe unicamente ao usuário do sistema alterar. Burro é o terceiro que acredita que pessoas mudam, pura e simplesmente. Quem nasceu Windows vai sempre travar. Não tem atualização que resolva.

Um homem casa com uma mulher esperando que ela não mude, mas ela muda; uma mulher casa com um homem esperando que ele mude, mas ele não muda.  Perspectivas diferentes de um mesmo foco, lados diferentes de uma mesma moeda.  Nada funciona a contento quando o assunto é mudança, mesmo quando se compreende e planeja perfeitamente de onde mudar, para que e para onde ir.  Adaptação, inconformismo, saudade, tudo é desculpa para evitar mudar.

Mas as pessoas só mudam quando elas querem“, já dizia uma criança que me ensinou uma lição de moral, certa vez – essa lição de moral, mais especificamente.  Sim, só quando querem.  Algumas querem mudar, mas não tanto, então não querem muito e, aí, não mudam.  Dizem que querem mas, no fundo, não querem.  Ficam onde estão, então.  Estagnadas na zona de conforto que as envolve e protege.

Queda da Bastilha

Queda da Bastilha

A verdade é que as mudanças são precipitadas muito mais pela proximidade de uma boa oportunidade de melhoria do que pelo inconformismo com a situação atual.  Basta olhar para a história e perceber isso: as grandes revoluções foram deflagradas muito tempo depois de modelos políticos e econômicos se mostrarem falidos.  Era preciso surgir um modelo novo, melhor, para que, enfim, todos se pusessem às ruas para golpear o modelo antigo até o cume da fatalidade.

De que adiantaria proclamar uma independência, dar um golpe de Estado, prender ou exilar um presidente, derrubar a Bastilha, degolar um rei, se não se soubesse o que viria depois?  Por pior que seja uma situação, o receio de que ela possa piorar impede, quase que totalmente, uma reação contra a realidade estabelecida.  Raras vezes – e só pessoas muito corajosas o conseguem – se busca a mudança por puro inconformismo com a situação atual.

O “querer”, que move a mudança, é limitado pelo “estar” da realidade e pela insegurança do “supor”, quando ele existe.


Farinha pouca, meu pirão primeiro

21 de Janeiro de 2011

O post (i.e., a catarse) da DaniH, que marca o retorno deste espaço às atividades, é muito oportuno, assim como o que lhe sucedeu. A temática abordada é muito relevante, embora as pessoas não estejam dando a ela a atenção que merece – para o nosso próprio bem.

Estamos vivendo uma época de profundo desprezo pelas pessoas, pelas relações sociais, pelo afeto, pelo amor, pela família, pela autoridade. O respeito ao próximo acabou. Hoje eu ouvi no rádio que um homem esfaqueou, por motivos ainda desconhecidos, o filho de 8 anos e a irmã dele (que, de acordo com a reportagem, era filha de outro). Alunos atacam professores por estarem insatisfeitos com as avaliações. Outro dia eu li em uma revista sobre mundo corporativo que a mãe de um empregado de uma grande empresa foi tirar satisfações com o chefe do filho porque ele o havia repreendido. O bullying no ambiente escolar e o assédio moral no ambiente de trabalho são cada vez mais intensos e agressivos.

Na recente tragédia da região serrana do Rio de Janeiro, ao lado das pessoas que buscam, sinceramente (sim, eu acredito que isso exista), ajudar aqueles que perderam tudo e/ou todos, há os que cobram 60 reais por um botição de gás, ou 40 por um garrafão de água – sem falar nos saques às casas abandonadas e mesmo aos cadáveres encontrados. As autoridades que atuam na organização estão tendo muita dificuldade com pessoas que vão até os locais atingidos, que ainda não estdão seguros, não para ajudar, mas para fotografar a tragédia, guardar recordações do drama alheio, sem perceber (ou não estão nem aí para o isso) que estão aumentando o risco de novos acidentes.

Mesmo entre alguns daqueles que se propuseram a ajudar há um pensamento que poucos têm coragem de admitir. É a sensação de “alívio” e conformismo de perceber que há pessoas em situação muito pior, e que a ajuda fornecida os torna “importantes”; além, é claro, de ostentar ao mundo sua “entrega desinteressada e sincera” no socorro, de modo a tentar faturar algum com o seu “engajamento social”. Isso é explorar a miséria humana. Eu, por exemplo, vi uma foto em um portal de notícias em que alguém cortava o cabelo de outra em Teresópolis, com a legenda indicando que aquilo era um trabalho “social”. Eu não acho que aquele que perdeu família, casa e carro ache que um corte de cabelo “de grátis” seja importante para a reconstrução da sua vida – a última coisa em que eu pensaria em uma situação dessas seria no meu cabelo.

As pessoas vivem cada vez mais encerradas no seu próprio mundo. Não querem se envolver outras a não ser que possam ganhar alguma coisa com aquilo, porque, afinal, já têm os seus próprios problemas, não precisam de mais; por outro lado, relacionar-se com outras pessoas pode mostrar que elas não são tão boas quanto elas acham (ou alguém as faz achar) que são. Não admitem que alguém (mesmo que tenha autoridade para tanto) lhes avalie, critique, corrija; não admitem que alguém seja diferente daquilo que elas definem como padrão – o que for deve ser consertado ou excluído. Vive-se de uma aparência supervalorizada, não se tolera o fracasso ou o contratempo. Abraçou-se a mediocridade, a mesquinharia e os relacionamentos descartáveis vivemos a ilusão de sermos algo que não somos. Não somos. não porque não podemos, mas porque dá muito trabalho.


Fuga

21 de Janeiro de 2011

A ideia desse blog é permitir spin-offs. Mas DaniH escreve muito. E escreve bem. E escreve sobre variados assuntos em um único post. Talvez acabemos cada um dos ângulos tratando um dos diversos assuntos – com spin-offs eternos a partir de um único post de uma única mente conturbada.

Em minha defesa – e dela – somos todos mentes conturbadas. Todos esperamos que algo de fora venha nos socorrer de nós mesmos, no fundo todos somos carentes. Por isso vivemos em sociedade, para compensar nos outros o que nos falta. A vida em sociedade é fruto de um paradoxo estranho: o sentimento de humanidade, de solidariedade, é inerente a todos, mas decorre do reconhecimento de que todos somos o mesmo poço de confusões e que em algum dia poderemos precisar da mesma ajuda que hoje dispensamos.

Vejam o recente caos no estado do Rio. Friburgo, Petrópolis, Teresópolis e outras cidades, perdas materiais, vidas perdidas, toda uma geração que trabalhará para recuperar o desenvolvimento material antes do caos e sabe-se quantas gerações para amenizar a dor da perda moral. Milhares de pessoas, embora não estivessem lá, sentiram-se pessoalmente atingidas, porque a morte de centenas de pessoas por um fenômeno natural mostrou que nosso complexo de Deus deveria, ao menos, passar a ser escrito com letra minúscula, e que nosso desenvolvimento não nos faz pairar acima de tudo aquilo que afetava nossos antepassados. Afinal, como eles, ainda nos afogamos, ainda nos machucamos, e ainda precisamos de água.

Nessas horas de catástrofe declarada, as pessoas se unem não por gostarem umas das outras, mas por identificarem que precisam permanecer juntas para sobreviver. É quase um pedido de perdão à natureza: “se eu ajudar meu amiguinho, você perdoa o fato de eu ter feito algo ruim?”. Toda solidariedade entre seres humanos tem um quê egoísta. Toda ela. Ninguém ajuda ninguém por total desprendimento, é sempre por algo que você identifica que TE faz bem: você pode precisar de ajuda futura? você quer que a pessoa continue gostando de você? você espera que ela pare de perturbar? você lamenta ter incomodado antes e por isso ajudar é uma forma de se desculpar? Sâo muitas as opções, nas quais o nível de egoísmo pode variar do absurdo ao mínimo, passando pelo aceitável. Mas ajudar é um ato egoísta. Quantos de vocês conhecem alguém que ajuda sem parar pra pensar, que ajuda sem questionar, que ajuda sem avaliar?

Ontem eu vi muita gente disposta a ajudar, desde que não estragasse o cabelo, desde que não sujasse a roupa, desde que não quebrasse a unha, desde que fosse possível manter a camisa da moda arrumadinha, o gel e o relógio no punho, desde que fosse possível exibir a forma física ou empinar a bunda perto de homens bonitos, desde que fosse possível flertar com os outros. Mesmo em situações extremas, a ajuda é fruto de egoísmo.

Egoísmo é autopreservação, sim. Mas autopreservação deveria ser algo bom, com um objetivo final claro: garantir a sobrevivência da vida. Ninguém espera que você se sacrifique, desbrave matas em busca de sobreviventes de um deslizamento, enfie-se em um incêndio para salvar desconhecidos, embora todos esperemos para alguém fazer isso caso algum dia precisemos. O problema é que toda nossa sociedade está rumando para o inverso, e um belo dia catástrofes como as que aconteceram na região serrana passarão ao largo de nossas preocupações do dia-a-dia e ninguém mais irá à Cruz Vermelha ajudar, nem mesmo condicionando essa ajuda a não estragar o cabelo.

Nossa tolerância à dor alheia aumenta proporcionalmente ao nosso egoísmo. O problema é que, ao contrário das HQs, aqui não há ninguem com superpoderes para nos salvar, salvando os outros. Esse é um papel que nos cabe e do qual estamos fugindo descaradamente. Let’s not #runtothehills. Talvez consigamos sem que haja a necessidade de uma grande catástrofe nos liberar da atração de nossos egos, guiando-nos para fora de nossos umbigos.

[Atualização: Nessas horas a gente entende o significado da parábola dos trabalhadores da última hora.. Mateus, 20:1-16]


O CUNSQ está de volta!

21 de Janeiro de 2011

Conectou? Bem vamos lá… senta que lá vem história gente…
Há muito tempo atrás eu fui convidada pelos amigos aqui a produzir um texto para o CUNSQ (CUNSQ=Cada Um No Seu Quadrado, siglas são parte da minha vida… e parte da vida útil de um nerd… tudo vira um código). A idéia, parida num dos nossos almoços, foi retomar o blog com um texto meu (gente: um texto meu! dá nervosinho só de pensar!)!!!
Enfim, fato é que tempo e disposição me faltaram neste intervalo… todo dia eu dizia que seria o dia em que escreveria o famigerado post (tem muito ia nesta frase, desconsiderem por favor). Cheguei a começar três rascunhos, com três assuntos diferentes… a pressão era muito grande… meu texto seria objeto de comentários dessa gente aqui… o bloqueio criativo montou sua barraca (no bom sentido) e acampou dentro de mim (nota metal: segura DaniH, que suas frases estão ficando estranhas…).
E logo o bloqueio criativo foi atropelado pela vida mesmo, um relacionamento capenga que me deu trabalho, o trabalho propriamente dito deu trabalho, amigos precisando de atenção, os cachorros, minhas atividades nérdicas… Enfim, o post foi ficando…
E o ano se passou. E o novo ano chegou. Um ano que já começou com várias emoções. Centenas delas. E assim chegamos à quarta semana do ano. Semana difícil (tão difícil que pedi uma folga que será paga com as choradas horas do meu banco #snif-fuuuungh). Várias emoções, uma em especial, que contou até com o suporte emocional do Caio… E que me gerou algumas conclusões e outras tantas dúvidas.
Gente, ninguém muda. Mudanças são processos complexos e dolorosos. Não é passeio no parque. Mudanças de comportamento, mudanças de postura, modificações de hábitos. São coisas que estão fora do controle de terceiros. Cabe unicamente ao usuário do sistema alterar. Burro é o terceiro que acredita que pessoas mudam, pura e simplesmente. Quem nasceu Windows vai sempre travar. Não tem atualização que resolva.
A segunda lição é que meus amigos nunca passam a mão na minha cabeça. Nenhum deles. Nunca ouvi um amigo me dizer “mas que grande FDP esse cara hein”. Sempre os ouço dizer “mas como você pode” (é pôde ou pode agora hein?). Ou seja, não importa o que aconteça, para os meus amigos, eu fui a burra, e preciso ser chamada à realidade (mas com todo o carinho e amor que lhes é peculiar).
E teve a pergunta. Uma pergunta feita ao próprio Caio. A pergunta era singela e não obteve a resposta desejada (não, não o pedi em casamento, calma amigos, o assédio ainda está sob controle, né mocinho?). Aliás, ao invés de uma resposta levei uma bronca porque estava fazendo drama. Uma descompostura (como diria a vovóH) para parar de chorar.
Minha esperança no ser humano vem rareando a cada dia. Diariamente eu vejo intolerância, grosserias menores, disputas vis. Pecadilhos diários que, acredita-se, uma oração esporádica apaga.
O evento que eu vivenciei (do qual Caio tomou parte sem muita escolha, coitado) foi a “problemática do EU”, como eu chamo. Os relacionamentos interpessoais estão cada vez mais complicados, porque a margem de egoísmo das pessoas está alcançando níveis perigosamente autodestrutivos.
Não vou aqui alardear qualquer sonho de Polyana (#polyanafeelings), o egoísmo é um daqueles sentimentos inerentes ao “serumano”. Não há, na face da terra criatura que não seja, em alguma medida, egoísta. É questão até de sobrevivência.
Mas, há pessoas que amplificam, potencializam o egoísmo, se travestindo no umbigo do mundo. Sujo, fétido, mas umbigo. Centro, foco. São pessoas que, em cada conversa mencionam a palavra EU, e pronomes e adjetivos correlatos, 7675748329 vezes. São pessoas que não ouvem, que não têm consciência das existências ao seu redor.
E não, não se enganem. Não se trata aqui do desabafo de uma mulher ferida (ai gente, eu seria uma ótima redatora de novela hein… mulher ferida foi ótima). Vai além, trata-se de uma constatação triste. O egoísmo deixou de ser aquela característica natural, que me rendia boas piadas, e até mesmo um tanto charmosa, para se tornar uma praga.
Este sentimento aumentou quando li um email (cujo remetente não recordo para dar os devidos créditos) onde se contava a história de um professor (como eu e a Fulana #medo) que teve uma faca cravada em seu coração, por um aluno revoltado com as notas baixas que recebera. O crime se deu na cantina da faculdade, em pleno horário escolar e na frente de todos os universitários. A pessoa encerrava a narração afirmando algo que me chocou: “estamos criando gerações em que uma parcela considerável de nossos cidadãos é composta de adultos mimados, despreparados para os problemas, decepções e desafios da vida, incapazes de lidar com conflitos e, pior, dotados de uma delirante certeza de que “o mundo lhes deve algo”.
É com estes seres egoístas que lidamos atualmente, e, pessoalmente, temo pelo nosso futuro.
#RUNTOTHEHILLS amigos.


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