Rua do Egito, por Leandro Moreira.
Esquina da Rua do Egito com a Ponte José Sarney, em São Luís do Maranhão.
Rua do Egito, por Leandro Moreira.
Esquina da Rua do Egito com a Ponte José Sarney, em São Luís do Maranhão.
Como é que eu viajava para o exterior sem internet para me dizer o que fazer, onde ir, quanto custa, o que ver? Sei lá. Quando penso em internet, não penso tanto no meu trabalho. Penso mais nas minhas viagens. Compras? Acho que posso comprar tudo em lojas ainda, sem a comodidade do frete para a minha residência, mas com a satisfação de já sair da loja com o produto na mão (e não com um lançamento no meu cartão de crédito trocado pela expectativa de receber o produto certo dali a alguns dias). Redes sociais? Meu blog seria um diário – ou não existiria, o que é mais provável. Este blog também não. Filas – a vida seria repleta de filas, como era antigamente: a fila do banco, da loja, do supermercado, do açougue (há pessoas que ainda brincam, ao ver uma fila, lembrando das homéricas filas da carne nas crises de abastecimento dos anos 80)… Nossas pesquisas didáticas voltariam ao velho recorte e cola manual. Sob este aspecto, pesquisas escolares nunca mudaram: sempre foram recorte e cola – a diferença foi a forma de recortar e colar, que a internet otimizou. Correspondências voltariam a ter o charme da entrega do carteiro que hoje perderam. Scraps e e-mails banalizaram a troca de correspondências a tal ponto que até aquela ligação telefônica esperada perdeu um pouco do seu espaço no rol de coisas que dão friozinho na barriga – neste ponto, suplantadas pelos torpedos enviados de telefones celulares, outra praga moderna hodierna. As conquistas amorosas não teriam mais suas vertentes cegas virtuais – vide o célebre caso de um amigo de um amigo meu que foi descoberto por terceiros inscrito no Par Perfeito. Notícias seriam lidas apenas nos jornais de papel, que retomariam o valor de antes (houve época em que alguns jornais, após lidos, eram revendidos!).
Será que se o governo brasileiro cortasse a internet do país inteiro haveria uma revolução para depor o governo? Será que se houvesse uma revolução para derrubar o governo, ele cortaria a internet do país inteiro? Primeiro, eu duvido que hoje, no Brasil, haja uma revolução para derrubar o governo. Brasília é longe demais, o povo brasileiro anda muito egoísta, pouco consciênte, pouco aguerrido – até Copa do Mundo a gente não encara mais com aquela gana e cegueira de antigamente, a Pátria de Chuteiras… Terá que ser algo muito sério, muito grave, para causar uma queda de governo com foco popular. Talvez um ou dois milhões de nerds sem internet, nas ruas, não seja capaz de tirar um minuto de sono dos governantes. Das outas hipóteses, a política toma conta. Mas não duvido que, para salvar-se, o governo cortasse a internet, numa cartada desesperada. A maior bola fora dessa medida seriam os prejuízos econômicos a ela associados. Aí é que residiria o perigo: quando dói no bolso, o pessoal que tem dinheiro se mexe – mais rápida e eficientemente do que quando dói no estômago ou em outras partes do corpo.
Talvez seja essa a diferença do Brasil para o Egito: lá, o ovo vem antes da galinha; aqui, só há galinha se houver ovo.
Perdoem-me pelas más lembranças que o título traz: sim, trata-se de uma clara referência aquela pérola da musicologia brasileira – O Tchan ( é esse o nome mesmo?).
Embora eu tenha certeza que vários queridos vão se lembrar da Carla Perez em estado natural com essa referência, não é esta a intenção.
Esta pérola da música brasileira descreve o que os autores entendiam como a cultura egípcia: muita sacanagem. Sacanagem em ambos os sentidos. Os caras deviam achar que o Egito é uma espécie de Copacabana (sem ofensa, só pela reconhecida fama de paraíso sexual) da cultura árabe. É, árabe. Porque afinal há referências acerca de odaliscas, habib, quibe (que horror). Enfim.
Mas porque vc esta fazendo estas digressões DaniH? (DaniH tá começando a se tornar uma personagem interessante ahn?). Sim o Egito está nas manchetes, mas não seremos tão óbvios né?
Esta semana eu me deparei com um caso bizarro na internetz.
Eu não tenho o menor saco pra utilização de redes sociais como o Facebook e orkut. Mantenho o primeiro por causa dos contatos (e dos lembretes de aniversário) e o segundo esta lentamente agonizando.
Vigora na internê, entre os iluminatti que a segunda rede social citada tornou-se território de pessoas menos providas de neurônios, ética e bom senso. Enfim, orkut e coisa de pobre. Facebook é pros sofisticados (se enganam achando que brasileiro não é capaz de transformar tudo num carnava… Facebook tua hora já ta chegando). Sou usuária, não relevante, do Twitter, que em geral é descrito como um microblog e que eu prefiro dizer que é um hospedeiro de microblogs que interagem reciprocamente. Só não chamem de rede social, porque isso ele não é (gente chega de definições né?).
Enfim. Esta semana uma determinada pessoa, dilacerada pela dor (creio eu) postou no Facebook uma atualização informando que na noite anterior seu noivo havia se suicidado e que a vida não fazia mais sentido para ela.
Não era uma trollagem. Era fato, consumado aliás.
O sinistro, para mim e outros tantos que se manifestaram sobre o assunto, foi a pessoa, diante de tamanha dor, correr pro Facebook pra anunciá-la entre seus amigos.
Mais sinistro ainda foram as quase quinhentas pessoas que cutucaram o ícone “curti”, logo abaixo da postagem.
Na época em que os deslizamentos da serra eram manchete constante dos jornais, um abençoado “curtiu” quando uma menina postou que tinha perdido um ente querido debaixo de sete pés de lama. Provavelmente aquele ser teve seus membros amputados pela violência da enxurrada, ou pelo choque com os elementos do caminho. Seu braço pode ter sido encontrado em cima do telhado de uma casa. Mais de 200 pessoas “curtiram” isso.
Mais recente ainda foi o desabamento do Pará. Um prédio em construção ruiu e lançou seus escombros por cima de casas e pessoas. Uma menina postou que seu primo morreu ali embaixo. Centenas “curtiram”.
Desculpem o peso das cenas, mas vejam, a falta de bom senso alcança níveis jamais vistos. Como assim a pessoa “curte” uma desgraça? Há um espaço para um comentário logo abaixo a postagem, mas ninguém o usa para uma palavra de apoio ou solidariedade. Penso que talvez seja a dificuldade de encontrar palavras pra se manifestar num evento tão complexo como a morte. É difícil para todos. Mas “curtir” gente?!
Mas vamos adiante porque ainda chegaremos ao Egito neste post.
O fato de se anunciar desta forma as dores que lhe afligem é algo que me assombra. Não que eu não tenha sido pessoal vez por outra no twitter. Sou. Não sou um personagem ali. Me responsabilizo pelo que escrevo, me exponho. É a precisa medida de exposição que me permito.
Já reclamei de namorados, já desabafei minhas angústias com o trabalho, já expus meus descontentamentos com amigos. Concordo com o Cardoso, internet é coisa seria e você tem de ser pessoal sim.
Mas tudo o que se expõe ali são dores menores. Pequenos empecilhos da vida. As dores maiores calam. Exemplo? Soube que a filha de um amigo estava internada vitima de queimaduras (arte de criança que acabou mal) através de outro que avisou do ocorrido quando perguntado onde estava o primeiro. O primeiro se calou. Foi viver a dor no mundo real.
Alguns ponderam que a exposição da dor é fruto do mal do mundo moderno. Tudo tem que ser capitalizado. Então se você é bonita e esbelta porque não capitalizar na interwebs com a dor da perda do noivo. A informação viaja em velocidades além da compreensão neste ambiente. Logo você estará num reality e daí em diante é a vida glossificada!
Achei esta uma percepção mais cruel ainda do fato, embora bem realista. É este o mundo que vivemos sim senhor. Somos, salvo poucas exceções, rasos assim.
A internetz atualmente (maldita inclusão digital) é a ferramenta de comunicação mais eficaz do mundo. Para o bem e para o mal. Exemplo recente é o caso da Magali dançando que se tornou viral, se espalhando rapidamente e criando o meme “agora dança Magali” (que substituiu o “aham Claudia, senta lá). E pode, também, acabar com uma imagem, como o caso #NISSANFAIL ou, recentemente o caso #BRASTEMP. Teve também o caso da Gal Costa que falou no twitter que seu conterrâneos soteropolitanos eram todos preguiçosos (sem piadinhas hein) e acabou se retirando de exposição, depois de xingarem muito ela no twitter.
Dependendo das circunstâncias a internetz é sua única porta de comunicação com o mundo, como, por exemplo, uma fila. Diga se você consegue viver sem internetz numa fila. Eu, pessoalmente, não entendo mais o mundo sem 3G.
E foi essa porta de comunicação um dos estopins da revolta das massas no Egito (eeeee chegamos!).
Claro que não ouso simplificar a agonia de anos de regime ditatorial a uma simples revolta porque fecharam lan-houses. Mas sim, um dos elementos mais fortes foi esse. O corte das comunicações. Ou como diz um amigo cortou internet cortou o porn e uma população sem porn é uma massa sem controle (desconsiderem a piadinha).
O território livre que permitia a troca de idéias com o mundo foi a pique no Egito com uma canetada que determinou que todos os servidores do país fossem desligados. Sua vida sem Google, já imaginou? Sua vida sem poder saber o resultado do concurso garota bomba 2011? (sorry, não resisti a piadinha preconceituosa).
Fato é que a internetz atualmente é sim território livre, território onde pessoas pensam, onde nerds se ajudam (o Google, por exemplo, permitiu o acesso ao Twitter pelos telefones celulares, recebendo e retransmitindo mensagens por voz e as transformando em mensagens de texto com a hashtag #egypt) e transmitem ao mundo os desmandos de um regime retrô, totalmente inadequado à atual realidade.
Só assim pra se descobrir que o exército não estava nas ruas oprimindo cidadãos mas rasgando bandeiras junto com eles .
A revolução não será televisionada. A revolução será transmitida via stream amigos.
E o que isso tem a ver com o Brasil? Ué a gente vai orkutizar tudo! É o que fazemos de melhor!
(Este post foi escrito no meu iPhone e transmitido via 3G para o WordPress, desculpem qualquer erro, o autocorrect é bem temperamental: damnyouautocorrect.com)