Post rapidinho (quase um tweet), só para dizer que esse texto me deu várias ideias, mas não consegui transformar nenhuma delas num post mental decente. Que dirá num post escrito. Hoje já é o 28º dia do mês… Então é melhor esperar o dia 1º chegar, quem sabe com um texto que dê ideias mais palatáveis ao meu cérebro Knutiano. Boa sorte para mim!
Essa é a esquina do Brasil com o Egito
9 de Fevereiro de 2011
Rua do Egito, por Leandro Moreira.
Esquina da Rua do Egito com a Ponte José Sarney, em São Luís do Maranhão.
A vida sem internet
8 de Fevereiro de 2011
Como é que eu viajava para o exterior sem internet para me dizer o que fazer, onde ir, quanto custa, o que ver? Sei lá. Quando penso em internet, não penso tanto no meu trabalho. Penso mais nas minhas viagens. Compras? Acho que posso comprar tudo em lojas ainda, sem a comodidade do frete para a minha residência, mas com a satisfação de já sair da loja com o produto na mão (e não com um lançamento no meu cartão de crédito trocado pela expectativa de receber o produto certo dali a alguns dias). Redes sociais? Meu blog seria um diário – ou não existiria, o que é mais provável. Este blog também não. Filas – a vida seria repleta de filas, como era antigamente: a fila do banco, da loja, do supermercado, do açougue (há pessoas que ainda brincam, ao ver uma fila, lembrando das homéricas filas da carne nas crises de abastecimento dos anos 80)… Nossas pesquisas didáticas voltariam ao velho recorte e cola manual. Sob este aspecto, pesquisas escolares nunca mudaram: sempre foram recorte e cola – a diferença foi a forma de recortar e colar, que a internet otimizou. Correspondências voltariam a ter o charme da entrega do carteiro que hoje perderam. Scraps e e-mails banalizaram a troca de correspondências a tal ponto que até aquela ligação telefônica esperada perdeu um pouco do seu espaço no rol de coisas que dão friozinho na barriga – neste ponto, suplantadas pelos torpedos enviados de telefones celulares, outra praga moderna hodierna. As conquistas amorosas não teriam mais suas vertentes cegas virtuais – vide o célebre caso de um amigo de um amigo meu que foi descoberto por terceiros inscrito no Par Perfeito. Notícias seriam lidas apenas nos jornais de papel, que retomariam o valor de antes (houve época em que alguns jornais, após lidos, eram revendidos!).
Será que se o governo brasileiro cortasse a internet do país inteiro haveria uma revolução para depor o governo? Será que se houvesse uma revolução para derrubar o governo, ele cortaria a internet do país inteiro? Primeiro, eu duvido que hoje, no Brasil, haja uma revolução para derrubar o governo. Brasília é longe demais, o povo brasileiro anda muito egoísta, pouco consciênte, pouco aguerrido – até Copa do Mundo a gente não encara mais com aquela gana e cegueira de antigamente, a Pátria de Chuteiras… Terá que ser algo muito sério, muito grave, para causar uma queda de governo com foco popular. Talvez um ou dois milhões de nerds sem internet, nas ruas, não seja capaz de tirar um minuto de sono dos governantes. Das outas hipóteses, a política toma conta. Mas não duvido que, para salvar-se, o governo cortasse a internet, numa cartada desesperada. A maior bola fora dessa medida seriam os prejuízos econômicos a ela associados. Aí é que residiria o perigo: quando dói no bolso, o pessoal que tem dinheiro se mexe – mais rápida e eficientemente do que quando dói no estômago ou em outras partes do corpo.
Talvez seja essa a diferença do Brasil para o Egito: lá, o ovo vem antes da galinha; aqui, só há galinha se houver ovo.
Mudanças
27 de Janeiro de 2011
O comodismo dificulta a mudança
Divergindo da maioria, que preferiu falar sobre a legitimidade e a real existência do altruísmo, apego-me à parte do texto da DaniH que falou sobre a dificuldade de implementar mudanças. E eu falo de qualquer tipo de mudança: de casa, de carro, de bicicleta, de marido/mulher, de roupa, de atitude, de trabalho… Mudar é difícil. Aliás, acho que vale a pena repetir as palavras de DaniH sobre o assunto: “Gente, ninguém muda. Mudanças são processos complexos e dolorosos. Não é passeio no parque. Mudanças de comportamento, mudanças de postura, modificações de hábitos. São coisas que estão fora do controle de terceiros. Cabe unicamente ao usuário do sistema alterar. Burro é o terceiro que acredita que pessoas mudam, pura e simplesmente. Quem nasceu Windows vai sempre travar. Não tem atualização que resolva.“
Um homem casa com uma mulher esperando que ela não mude, mas ela muda; uma mulher casa com um homem esperando que ele mude, mas ele não muda. Perspectivas diferentes de um mesmo foco, lados diferentes de uma mesma moeda. Nada funciona a contento quando o assunto é mudança, mesmo quando se compreende e planeja perfeitamente de onde mudar, para que e para onde ir. Adaptação, inconformismo, saudade, tudo é desculpa para evitar mudar.
“Mas as pessoas só mudam quando elas querem“, já dizia uma criança que me ensinou uma lição de moral, certa vez – essa lição de moral, mais especificamente. Sim, só quando querem. Algumas querem mudar, mas não tanto, então não querem muito e, aí, não mudam. Dizem que querem mas, no fundo, não querem. Ficam onde estão, então. Estagnadas na zona de conforto que as envolve e protege.

Queda da Bastilha
A verdade é que as mudanças são precipitadas muito mais pela proximidade de uma boa oportunidade de melhoria do que pelo inconformismo com a situação atual. Basta olhar para a história e perceber isso: as grandes revoluções foram deflagradas muito tempo depois de modelos políticos e econômicos se mostrarem falidos. Era preciso surgir um modelo novo, melhor, para que, enfim, todos se pusessem às ruas para golpear o modelo antigo até o cume da fatalidade.
De que adiantaria proclamar uma independência, dar um golpe de Estado, prender ou exilar um presidente, derrubar a Bastilha, degolar um rei, se não se soubesse o que viria depois? Por pior que seja uma situação, o receio de que ela possa piorar impede, quase que totalmente, uma reação contra a realidade estabelecida. Raras vezes – e só pessoas muito corajosas o conseguem – se busca a mudança por puro inconformismo com a situação atual.
O “querer”, que move a mudança, é limitado pelo “estar” da realidade e pela insegurança do “supor”, quando ele existe.
Quem conta um conto…*
8 de Janeiro de 2009Não é recente a mania humana de contar histórias. Desde sempre, quero dizer, acho que desde que a habilidade de falar foi desenvolvida pelos seres humanos (o que provavelmente aconteceu em uma caverna escura, iluminada por uma fogueira, depois de uma mutação genética criadora das cordas vocais, provavelmente em um representante feminino da espécie), contar histórias é uma constate humana.
Pensando rapidamente no assunto, lembrei de um monte de tipos de histórias que podem ser contadas: a História propriamente dita (por isso o “H” maiúsculo), histórias próprias, vividas pelo próprio narrador; “causos“, piadas, dramas, fábulas, histórias da carochinha, histórias para boi dormir, histórias para nincar bebê… E o gênero mais comum: as fofocas!!!
Fofocas são uma mania generalizada. Homens fazem, mas discretamente. Mulheres fazem abertamente, umas das outras ou não.
“- Fulano, você sabe da última?“ Ninguém resiste a responder que “sim“. Pode até dizer “não“, mas sempre querendo dizer “sim“. Por isso é que, ao ouvir o “não“, a pessoa que fez a pergunta emenda contando a “última“. E quem falou o “não” ouve atenta.
Fofocas são sempre contadas com tom de mistério, com o interlocutor-narrador olhando para os lados para ver se o alvo-protagonista da fofoca aparece. As fofocas provocam alongamento de palavras: “Fulaaaaana, você não sabe o que aconteceeeeuu“. O gestual também é característico: mãos próximas à boca ou encostando na testa, abertas, indicam o grau de sigilo da fofoca, de gravidade dos fatos, de importância do alvo-protagonista ou das consequencias da história.
E fofoca nunca é fofoca se, o interlocutor-narrador não tomar a liberdade de acrescentar alguma coisa à história que ele ouviu ou presenciou. A história, em si, pode ser fantástica. Mas jamais será uma fofoca se for somente aquilo. Ninguém conta fofoca com tom de seriedade e afirma no final: “foi só isso, eu mesmo vi“. É como uma grande brincadeira de telefone-sem-fio. Quem conta um conto, aumenta um ponto… Ou mais.
* Post inspirado e parcialmente plagiado de “Chá de Saquinho“.
O modo brasileiro de encarar os fatos
28 de Dezembro de 2008Quarta-feira, de manhã cedo, uma pessoa sai para trabalhar. Na esquina, perto de casa, seu carro é parado por outro carro. Quatro pessoas descem, caminham em sua direção, sacam as armas e atiram, tantas vezes quanto lhes apetecem, na direção do carro. Sem explicação, sem dó, sem compaixão, sem piedade. Quarta-feira, dia 24 de dezembro de 2008. Fato verídico.
O que foi o Natal da família dessa pessoa?
A maldade não tem limites. Ela depende apenas da imaginação humana. Já a bondade… Bem, essa é mais devagar, mais silenciosa. Enquanto esta ensina aos poucos, aquela deseduca de uma vez só: pelo exemplo. O mal exemplo que vale mais que mil ensinamentos.
Eu poderia listar uma série de outros crimes mais famosos que abalaram a sociedade nos últimos anos. O menino que foi arrastado pelo carro até a morte; a menina que foi assassinada na estação São Francisco Xavier; o soldado que foi morto a tiros num canal em Brás de Pina há poucos dias; o famoso assassinato do Rio Sul, atrás do camburão (essa já é velha)… A cada dia, eu me assusto mais por me chocar menos com essas histórias.
Mas só o choque (que já anda a meia-bomba) também não basta. É preciso reagir.
Li há pouco tempo que, quando a União Soviética foi invadida por Hitler, no dia seguinte havia filas e mais filas na porta dos quartéis do Exército Vermelho – pessoas querendo se alistar para defender o país, a pátria, a sua terra e a sua gente. Fosse no Brasil de hoje, é possível que até os militares de carreira deserdassem. No Brasil, reação é uma palavra inexistente.
Não se reage contra políticos ladrões, não se reage contra ladrões, assaltantes, estupradores e assassinos, não se reage contra nada. O brasileiro gosta de apanhar, gosta de sofrer. Oferece a outra face para o próximo tapa.
E não venham me dizer que mandar comida para Santa Catarina é reação. Não é! Reação, para ser verdadeira, tem que ser feita de modo eficiente e silencioso, sem impulso da mídia. Mandar alimentos para o Vale do Jequitinhonha, sim, seria uma reação. Esperar os políticos na saída do Congresso para tomar satisfações, sim, seria uma reação. Insurgir-se contra a violência das grandes cidades, com atos concretos de união social, sim, seria uma reação.
Fazer protesto vestido de branco num domingo cinzento na Av. Atlântica não é suficiente. Porque enquanto a galera caminha com suas faixas, tem um monte de crianças largadas à própria sorte ali do lado, vendo a banda passar.
Meu dia de São Tomé
3 de Dezembro de 2008
Cena clássica de São Tomé
Não era um dia 3 de julho (se fosse, seria realmente muita coincidência). Para ser sincero, nem lembro que dia era. Acho que aquele alemãozinho já está me deixando meio louco. Só sei que, pelo telefone, eu dei as dicas que ela precisava para chegar na estação do metrô de São Cristóvão, perto do prédio onde teríamos a primeira aula da nossa pós-graduação.
Dei todas as dicas e fui para lá esperá-la. Coitada: vindo de Belém-PA pela primeira vez e justamente na Zona Norte da cidade. Aquele mundão… Mal sabia eu que a pontualidade não era o seu forte. Esperei, esperei, esperei e desisti. Deixei recado com o segurança do metrô que uma garota muito perdida ia chegar por ali perguntando onde era o prédio da Petrobras – como se precisasse dizer…
Voltei para o início da aula – que atrasou também. Juntei-me com dois amigos e voltamos para a estação do metrô para esperá-la. Nem precisou chegar lá: no caminho, eu encontrei Jesus! Eu e os meus amigos. E todos nos tornamos seus seguidores, seus apóstolos.
Mais adequado seria dizer que Jesus me encontrou. Afinal de contas, quem sou eu para encontrá-lo? Senti-me como São Tomé. Vi e acreditei. E só acreditei porque vi.
E Jesus, para nossa felicidade, passou a nos visitar regularmente. Uma vez por mês, quase todos os meses do ano, tivemos a felicidade de compartilhar a sua presença no meio de nós, vinda de sua terra-natal: Belém. Se, por um lado, ela (isso mesmo, Jesus, nesse caso, é uma mulher) não conseguiu arregimentar doze apóstolos, por outro, ela não se fez por rogada: várias vezes trouxe Maria (que, nesse caso, não é sua mãe, mas figurativamente poderia ser) à tira-colo.
E foi por decisão unânime, instintiva e, sei lá… - parece que a idéia havia sido feita para ela (ou, quem sabe, por ela) - que, quando a idéia deste blog surgiu, foi nela que todos pensamos para escrever o post inaugural. Mas ela pediu para escrever o post de dezembro, por causa das suas merecidas férias… Nada contra. Deu até motivos para escrevermos sobre as suas férias no mês passado.
Agora que Jesus está de volta, no mês do seu aniversário, vamos, sim, nos esforçar – mais do que no restante do ano – para otimizar a paz! Afinal de contas, a palavra do mestre é para ser seguida, e não questionada nem esquecida. Eu a vi e nela acreditei. Este relato serve para que outros acreditem sem terem visto – e também se esforcem para otimizar a paz.
Feliz Natal a todos!
Janela Indiscreta
13 de Novembro de 2008Querer e não querer exposição ao mesmo tempo: eis a questão.
O ser humano deve ter algo de esquizofrênico na sua essência. Sempre foi um pouco esquisita essa relação dele entre o público e o privado, o social e o íntimo, o que é dos outros e o que é dele, a república e a monarquia absolutista. O ser humano sempre teve muita dificuldade de entender essas coisas. Vai ver é por isso que o comunismo nunca saiu do papel na sua pureza – permanece um conceito utópico.
Para você ver: experimente reunir um grupo de crianças. Um grupo pequeno, com umas cinco ou seis, com aproximadamente seis anos. Dê alguma coisa a uma delas e diga que não é para ela, mas para todas (melhor ainda se for brinquedo: diga que é para todas brincarem juntas). Duvido que uma das crianças (provavelmente a que recebeu o brinquedo) não vai começar a ditar as regras da brincadeira e, no fim, como argumento, vai dizer que foi ela quem ganhou o brinquedo.
A mesma coisa acontece com os cães, que dificilmente conseguem partilhar seus brinquedos e pratos de comida. O que é deles, é deles. É assim que a banda deles toca. O comunismo não está em suas veias. Eles podem até fazer caridade, mas a caridade não desnatura o capitalismo que compõe a sua carga genética.
Lidar com a coisa pública é difícil. Requer uma elevação do estado mental que poucos seres humanos conseguiram alcançar e muitos se recusam a tentar alcançar. Mas escrever um blog e torná-lo público?… Permitir que qualquer pessoa comente qualquer coisa? Sem moderação, sem controle de comentários, assumindo as conseqüências de cada palavra que ali consta?… Quanta diferença.
A internet veio para devassar a vida das pessoas, por mais que ela não seja acessível a todas elas (isso é fato, embora não venha ao caso discutir isso). Você pode descobrir várias coisas sobre qualquer pessoa, independentemente da vontade dela de se expor ou não, simplesmente jogando o nome completo dela entre aspas no Google.

"Janela Indiscreta", de Hitchcock
Hoje, nada mais é estritamente privado. Quem mora em conjunto residencial sabe disso: tem sempre um vizinho vendo lá dentro do seu apartamento pela varanda dele, uma vizinha fazendo fofoca e o porteiro, então, nem se fala. Nem mesmo aquele segredinho que você guarda a sete chaves, no seu íntimo, é só seu.
Resta, então, decidir você mesmo entregar isso aos outros, e assumir as conseqüências desse ato, ou esperar que alguém (não) o descubra.
E o Gutemberg com isso?
2 de Novembro de 2008Certa vez, eu cheguei a acusar a internet de ser a nova enciclopédia. Disse isso quando descobri que ela guardava, nos seus cyberconfins, até mesmo sites pornográficos para cegos (na verdade, narrações de cenas de sexo feitas com a expressividade e a vibração do engenheiro da McLaren após uma vitória de Lewis Hamilton).
Cada vez mais eu acho que tenho razão. Todo conhecimento pode ser achado aqui (à exceção dos ultra-secretos dados de empresas e Estados, mas isso não conta), bastam duas coisas: Google e paciência. Nada mais! Pouco a pouco, os livros deixam de ter a importância que tiveram em outros tempos, principalmente a partir da invenção da imprensa.
Naquela época, a imprensa foi uma invenção tão revolucionária quanto é, para nós, a internet. De um dia para o outro, o que só os monges sabiam, porque eles, em especial, guardavam os antigos manuscritos em suas bibliotecas. E os transcreviam… Como será que o livro impactou aquela sociedade? Acredito que da mesma forma, quero dizer, com a mesma intensidade que a internet impacta esta sociedade.
De uma hora para outra (naquela época, talvez tenha sido de um século para o outro), tudo o que era conversado, vivido e contado, passou a ser escrito e repetido em livros. Surgiram os escritores, os poetas e os pensadores. Antes da imprensa, eles não existiam. As histórias eram contadas boca-a-boca, sempre à base do relacionamento interpessoal. Só se podia aprender algo com contato pessoal com o detentor do conhecimento.
Com a imprensa, popularizou-se o conhecimento. Era possível aprender com o contato com os livros, pouco importando quem era o autor, sua fisionomia, nacionalidade, distância física…
A internet potencializou essa realidade. Se antes era necessário esperar dias por uma carta, hoje é preciso esperar segundos, quando muito, para receber um correio eletrônico. Se antes era necessário ir a uma biblioteca, hoje basta ligar o computador. Se antes era preciso viajar horas para matar as saudades, hoje basta ter uma webcam para ver a pessoa amada.
Se isso difiiculta ou ajuda os relacionamentos interpessoais, eu não sei. Cada um deve ter a sua realidade, cada um deve viver a sua particularidade. Deve haver gente deprimida e gente alegre nesse mundo, compartilhando suas tristezas, mágoas e alegrias na rede. E, provavelmente, essa deve ser a grande graça do negócio. Deve ter sido assim também na época da inveção da imprensa.
Publicado por Leandro 