O post (i.e., a catarse) da DaniH, que marca o retorno deste espaço às atividades, é muito oportuno, assim como o que lhe sucedeu. A temática abordada é muito relevante, embora as pessoas não estejam dando a ela a atenção que merece – para o nosso próprio bem.
Estamos vivendo uma época de profundo desprezo pelas pessoas, pelas relações sociais, pelo afeto, pelo amor, pela família, pela autoridade. O respeito ao próximo acabou. Hoje eu ouvi no rádio que um homem esfaqueou, por motivos ainda desconhecidos, o filho de 8 anos e a irmã dele (que, de acordo com a reportagem, era filha de outro). Alunos atacam professores por estarem insatisfeitos com as avaliações. Outro dia eu li em uma revista sobre mundo corporativo que a mãe de um empregado de uma grande empresa foi tirar satisfações com o chefe do filho porque ele o havia repreendido. O bullying no ambiente escolar e o assédio moral no ambiente de trabalho são cada vez mais intensos e agressivos.
Na recente tragédia da região serrana do Rio de Janeiro, ao lado das pessoas que buscam, sinceramente (sim, eu acredito que isso exista), ajudar aqueles que perderam tudo e/ou todos, há os que cobram 60 reais por um botição de gás, ou 40 por um garrafão de água – sem falar nos saques às casas abandonadas e mesmo aos cadáveres encontrados. As autoridades que atuam na organização estão tendo muita dificuldade com pessoas que vão até os locais atingidos, que ainda não estdão seguros, não para ajudar, mas para fotografar a tragédia, guardar recordações do drama alheio, sem perceber (ou não estão nem aí para o isso) que estão aumentando o risco de novos acidentes.
Mesmo entre alguns daqueles que se propuseram a ajudar há um pensamento que poucos têm coragem de admitir. É a sensação de “alívio” e conformismo de perceber que há pessoas em situação muito pior, e que a ajuda fornecida os torna “importantes”; além, é claro, de ostentar ao mundo sua “entrega desinteressada e sincera” no socorro, de modo a tentar faturar algum com o seu “engajamento social”. Isso é explorar a miséria humana. Eu, por exemplo, vi uma foto em um portal de notícias em que alguém cortava o cabelo de outra em Teresópolis, com a legenda indicando que aquilo era um trabalho “social”. Eu não acho que aquele que perdeu família, casa e carro ache que um corte de cabelo “de grátis” seja importante para a reconstrução da sua vida – a última coisa em que eu pensaria em uma situação dessas seria no meu cabelo.
As pessoas vivem cada vez mais encerradas no seu próprio mundo. Não querem se envolver outras a não ser que possam ganhar alguma coisa com aquilo, porque, afinal, já têm os seus próprios problemas, não precisam de mais; por outro lado, relacionar-se com outras pessoas pode mostrar que elas não são tão boas quanto elas acham (ou alguém as faz achar) que são. Não admitem que alguém (mesmo que tenha autoridade para tanto) lhes avalie, critique, corrija; não admitem que alguém seja diferente daquilo que elas definem como padrão – o que for deve ser consertado ou excluído. Vive-se de uma aparência supervalorizada, não se tolera o fracasso ou o contratempo. Abraçou-se a mediocridade, a mesquinharia e os relacionamentos descartáveis vivemos a ilusão de sermos algo que não somos. Não somos. não porque não podemos, mas porque dá muito trabalho.
Publicado por Eduardo Santos