A ideia desse blog é permitir spin-offs. Mas DaniH escreve muito. E escreve bem. E escreve sobre variados assuntos em um único post. Talvez acabemos cada um dos ângulos tratando um dos diversos assuntos – com spin-offs eternos a partir de um único post de uma única mente conturbada.
Em minha defesa – e dela – somos todos mentes conturbadas. Todos esperamos que algo de fora venha nos socorrer de nós mesmos, no fundo todos somos carentes. Por isso vivemos em sociedade, para compensar nos outros o que nos falta. A vida em sociedade é fruto de um paradoxo estranho: o sentimento de humanidade, de solidariedade, é inerente a todos, mas decorre do reconhecimento de que todos somos o mesmo poço de confusões e que em algum dia poderemos precisar da mesma ajuda que hoje dispensamos.
Vejam o recente caos no estado do Rio. Friburgo, Petrópolis, Teresópolis e outras cidades, perdas materiais, vidas perdidas, toda uma geração que trabalhará para recuperar o desenvolvimento material antes do caos e sabe-se quantas gerações para amenizar a dor da perda moral. Milhares de pessoas, embora não estivessem lá, sentiram-se pessoalmente atingidas, porque a morte de centenas de pessoas por um fenômeno natural mostrou que nosso complexo de Deus deveria, ao menos, passar a ser escrito com letra minúscula, e que nosso desenvolvimento não nos faz pairar acima de tudo aquilo que afetava nossos antepassados. Afinal, como eles, ainda nos afogamos, ainda nos machucamos, e ainda precisamos de água.
Nessas horas de catástrofe declarada, as pessoas se unem não por gostarem umas das outras, mas por identificarem que precisam permanecer juntas para sobreviver. É quase um pedido de perdão à natureza: “se eu ajudar meu amiguinho, você perdoa o fato de eu ter feito algo ruim?”. Toda solidariedade entre seres humanos tem um quê egoísta. Toda ela. Ninguém ajuda ninguém por total desprendimento, é sempre por algo que você identifica que TE faz bem: você pode precisar de ajuda futura? você quer que a pessoa continue gostando de você? você espera que ela pare de perturbar? você lamenta ter incomodado antes e por isso ajudar é uma forma de se desculpar? Sâo muitas as opções, nas quais o nível de egoísmo pode variar do absurdo ao mínimo, passando pelo aceitável. Mas ajudar é um ato egoísta. Quantos de vocês conhecem alguém que ajuda sem parar pra pensar, que ajuda sem questionar, que ajuda sem avaliar?
Ontem eu vi muita gente disposta a ajudar, desde que não estragasse o cabelo, desde que não sujasse a roupa, desde que não quebrasse a unha, desde que fosse possível manter a camisa da moda arrumadinha, o gel e o relógio no punho, desde que fosse possível exibir a forma física ou empinar a bunda perto de homens bonitos, desde que fosse possível flertar com os outros. Mesmo em situações extremas, a ajuda é fruto de egoísmo.
Egoísmo é autopreservação, sim. Mas autopreservação deveria ser algo bom, com um objetivo final claro: garantir a sobrevivência da vida. Ninguém espera que você se sacrifique, desbrave matas em busca de sobreviventes de um deslizamento, enfie-se em um incêndio para salvar desconhecidos, embora todos esperemos para alguém fazer isso caso algum dia precisemos. O problema é que toda nossa sociedade está rumando para o inverso, e um belo dia catástrofes como as que aconteceram na região serrana passarão ao largo de nossas preocupações do dia-a-dia e ninguém mais irá à Cruz Vermelha ajudar, nem mesmo condicionando essa ajuda a não estragar o cabelo.
Nossa tolerância à dor alheia aumenta proporcionalmente ao nosso egoísmo. O problema é que, ao contrário das HQs, aqui não há ninguem com superpoderes para nos salvar, salvando os outros. Esse é um papel que nos cabe e do qual estamos fugindo descaradamente. Let’s not #runtothehills. Talvez consigamos sem que haja a necessidade de uma grande catástrofe nos liberar da atração de nossos egos, guiando-nos para fora de nossos umbigos.
[Atualização: Nessas horas a gente entende o significado da parábola dos trabalhadores da última hora.. Mateus, 20:1-16]
Publicado por Sarita O.