Fuga

21 de Janeiro de 2011

A ideia desse blog é permitir spin-offs. Mas DaniH escreve muito. E escreve bem. E escreve sobre variados assuntos em um único post. Talvez acabemos cada um dos ângulos tratando um dos diversos assuntos – com spin-offs eternos a partir de um único post de uma única mente conturbada.

Em minha defesa – e dela – somos todos mentes conturbadas. Todos esperamos que algo de fora venha nos socorrer de nós mesmos, no fundo todos somos carentes. Por isso vivemos em sociedade, para compensar nos outros o que nos falta. A vida em sociedade é fruto de um paradoxo estranho: o sentimento de humanidade, de solidariedade, é inerente a todos, mas decorre do reconhecimento de que todos somos o mesmo poço de confusões e que em algum dia poderemos precisar da mesma ajuda que hoje dispensamos.

Vejam o recente caos no estado do Rio. Friburgo, Petrópolis, Teresópolis e outras cidades, perdas materiais, vidas perdidas, toda uma geração que trabalhará para recuperar o desenvolvimento material antes do caos e sabe-se quantas gerações para amenizar a dor da perda moral. Milhares de pessoas, embora não estivessem lá, sentiram-se pessoalmente atingidas, porque a morte de centenas de pessoas por um fenômeno natural mostrou que nosso complexo de Deus deveria, ao menos, passar a ser escrito com letra minúscula, e que nosso desenvolvimento não nos faz pairar acima de tudo aquilo que afetava nossos antepassados. Afinal, como eles, ainda nos afogamos, ainda nos machucamos, e ainda precisamos de água.

Nessas horas de catástrofe declarada, as pessoas se unem não por gostarem umas das outras, mas por identificarem que precisam permanecer juntas para sobreviver. É quase um pedido de perdão à natureza: “se eu ajudar meu amiguinho, você perdoa o fato de eu ter feito algo ruim?”. Toda solidariedade entre seres humanos tem um quê egoísta. Toda ela. Ninguém ajuda ninguém por total desprendimento, é sempre por algo que você identifica que TE faz bem: você pode precisar de ajuda futura? você quer que a pessoa continue gostando de você? você espera que ela pare de perturbar? você lamenta ter incomodado antes e por isso ajudar é uma forma de se desculpar? Sâo muitas as opções, nas quais o nível de egoísmo pode variar do absurdo ao mínimo, passando pelo aceitável. Mas ajudar é um ato egoísta. Quantos de vocês conhecem alguém que ajuda sem parar pra pensar, que ajuda sem questionar, que ajuda sem avaliar?

Ontem eu vi muita gente disposta a ajudar, desde que não estragasse o cabelo, desde que não sujasse a roupa, desde que não quebrasse a unha, desde que fosse possível manter a camisa da moda arrumadinha, o gel e o relógio no punho, desde que fosse possível exibir a forma física ou empinar a bunda perto de homens bonitos, desde que fosse possível flertar com os outros. Mesmo em situações extremas, a ajuda é fruto de egoísmo.

Egoísmo é autopreservação, sim. Mas autopreservação deveria ser algo bom, com um objetivo final claro: garantir a sobrevivência da vida. Ninguém espera que você se sacrifique, desbrave matas em busca de sobreviventes de um deslizamento, enfie-se em um incêndio para salvar desconhecidos, embora todos esperemos para alguém fazer isso caso algum dia precisemos. O problema é que toda nossa sociedade está rumando para o inverso, e um belo dia catástrofes como as que aconteceram na região serrana passarão ao largo de nossas preocupações do dia-a-dia e ninguém mais irá à Cruz Vermelha ajudar, nem mesmo condicionando essa ajuda a não estragar o cabelo.

Nossa tolerância à dor alheia aumenta proporcionalmente ao nosso egoísmo. O problema é que, ao contrário das HQs, aqui não há ninguem com superpoderes para nos salvar, salvando os outros. Esse é um papel que nos cabe e do qual estamos fugindo descaradamente. Let’s not #runtothehills. Talvez consigamos sem que haja a necessidade de uma grande catástrofe nos liberar da atração de nossos egos, guiando-nos para fora de nossos umbigos.

[Atualização: Nessas horas a gente entende o significado da parábola dos trabalhadores da última hora.. Mateus, 20:1-16]


A sua versus a minha

5 de Janeiro de 2009

História é uma questão de ponto de vista. A tendência é que a contemos de acordo com nossos valores: eu gosto mais de você, então eu realço sua participação em qualquer evento, mesmo que você tenha sido mero espectador. Posso até dizer que não estivesse você ali, os fatos não teriam se desenrolado daquela maneira.

No final das contas, a história permite tantas adulterações quantas o tempo permitir passar – pela impossibilidade de confirmação dos dados – ou quantas a memória das pessoas – aquelas que leem a história – deixar escapar. Analisem a história do Brasil, por exemplo. Duque de Caxias é considerado por muitos um herói nacional, e ele realmente foi, dependendo do ponto de vista. Porque alguns descendentes de índios e alguns descendentes de paraguaios provavelmente o consideram um assassino sanguinário e frio.

Vai entender? O tempo passa e mesmo os registros escritos dependem de quem manda.
A Igreja até hoje afirma que Jesus nasceu de Maria, virgem. Virgem? Não sei, eu não estava lá. Mas combina com o dogma católico. Será que dizer que ela realmente “deitou-se” com José colocaria por terra todos os ensinamentos de Jesus? Será que todos os grandes líderes religiosos do mundo precisavam ter nascido de mulher virgem? Será que isso foi importante só naquela época e agora nós – crescidinhos, que não acreditamos mais em cegonha e papai noel – podemos pensar que talvez, quem sabe, de repente, ela não fosse virgem?

História. Depende do ponto de vista, depende de quem conta, depende de quem escuta. Posso contar a mesma história pra vocês e cada um entenderá de um jeito. E depois cada um recontará a sua maneira… Mas no final, a história será tão distorcida quanto o tempo permitir.

Nessa época de log, registro, sistema, temos a impressão que o que está escrito não pode ser adulterado. Ledo engano. Pode. E é.

Imagino que daqui a alguns meses ninguém vá se lembrar que o post logo abaixo não foi publicado exatamente no dia 1o de janeiro. E assim, o novo ano começa com mais uma distorção dos fatos, coberta de boas intenções, mas com efeitos futuros totalmente desconhecidos.

A sua versão e a minha versão são muito diferentes da nossa versão dos fatos…


Paz na Terra aos homens de boa vontade

25 de Dezembro de 2008

Jesus – messias ou não – poderia nascer agora, em 25 de dezembro de 2008, e novamente ninguém entenderia nada do que ele falou.
Assim como diversas outras pessoas, com maior ou menor influência sobre maior ou menor parte da humanidade, ele apenas disse que deveríamos ser um pouquinho mais amigos dos outros seres humanos, sejam aqueles próximos, sejam aqueles não tão próximos. E isso independe de opção religiosa – qual religião prega a destruição do próximo?
Ele, assim como Gandhi, como Buda, como Martin Luther King, como minha avó (por que não?), apenas demonstrou que, sim, dá trabalho ser melhor do que somos, dá trabalho tentar melhorar, mas pra que ficar aqui então? Pra ver a banda passar?

As pessoas esquecem o poder que têm sobre a vida umas das outras.
Durante este ano, enquanto eu ajudava um amigo, olhei para o lado e vi uma outra pessoa me ajudando a ajudá-lo, em silêncio. A pessoa não falou nada e não fez nada além de demonstrar que estava ali caso eu precisasse. Ela me ajudou mais até do que imagina, e eu nunca esqueci. Na verdade, naquela hora, eu percebi como um gesto simples, despretensioso, livre de qualquer intenção escondida, sem qualquer vinculação religiosa, pode ser muito mais importante do que pregações de todo tipo.
É por essa e outras que eu parei de me preocupar com a opção religiosa das pessoas.

Quando eu era criança, lembro de alguém ter me contado aquela história de Jesus em que ele diz que devemos perdoar 490 vezes (70×7). Lembro que eu fazia as contas e pensava “Puxa, mas porque ele não falou que deveríamos perdoar sempre?” até o dia que minha mãe me explicou que a idéia era acostumar a pessoa a perdoar: no início, ela fazia as contas, até que ela acabaria se acostumando e o número de vezes seria esquecido.

Pois eu conheço algumas pessoas que mantêm a conta – pra quando chegar no 490 poderem parar de perdoar sem qualquer remorso.

No final, acaba sendo muito cômodo esperar o dia 25 de dezembro para ser bom, gentil, atencioso. A sociedade cobra isso, nossos amigos esperam isso. E todos esquecem os outros 364 dias e 6 horas que cada ano tem. Não, deixemos os 364 dias e 6 horas de lado. Pensemos em estender essa prática ao dia 24 de dezembro, ao dia 31 de dezembro, ao dia 1o de janeiro. Tentemos aplicá-la ao dia do nosso aniversário – quando estamos naturalmente mais felizes – ou ao dia dos aniversários das pessoas que amamos. Quando repararmos, teremos um mês de bondade obrigatória – e acabará virando hábito ser gentil com as pessoas.

No final das contas, Jesus – a figura histórica mesmo – mostrou principalmente que se você quiser mudar alguma coisa, tem que começar devagar, aos poucos, e dependendo do que queira mudar você terá que convencer muitas pessoas de que você está certo. Mesmo assim, a probabilidade de você não convencer ninguém é grande.
Igualmente grande deve ser sua força de vontade.

Mas se você for como eu – e tiver certeza que os momentos grandiosos da vida não levam o seu nome – fique com os pequenos momentos, valorize as pequenas presenças, os pequenos gestos, o sorriso.

A vocês, meus amigos, um feliz natal, hoje, amanhã, daqui a uma semana também.
Obrigada pela companhia barulhenta de todos os dias e pela companhia silenciosa nas horas que eu precisei.


Contradição

10 de Novembro de 2008

A idéia de um blog – já comentada aqui pelo Leandro e mesmo pela Deise, nossa primeira convidada – é abrir o jogo. Mentindo, contando a verdade, falando besteira, inventando histórias que poderiam ter acontecido ou que jamais aconteceriam, a idéia é escrever. E quem escreve deseja – em parte – uma platéia. Por menor e mais seleta que seja, ninguém quer escrever para o futuro, para a posteridade, ou para si mesmo. Quem o quer escreve em um diário, tranca e esconde no armário, não publica na internet num endereço que pode ser rastreado pelo google ou qualquer outra ferramenta de busca. Muito menos o publica em um blog e depois sai fazendo propaganda deste blog em sua página no orkut, em blogs de amigos, em mesas de bar, em pós-graduações e mba’s. Quem não quer platéia, na melhor das hipóteses, não escreve – opta por falar sozinho, porque assim guarda os segredos e não precisa mentir.

Mas escrever em um blog, por mais interessante e exibicionista que seja (sim, eu me sinto em uma vitrine), tem seu lado ruim. Porque exibir-se por opção eu considero algo intrinsicamente bom – não sou masoquista, então me exibo aqui porque quero.

Escrever em um blog traz a fama – ou não. É essa parcela de incerteza que causa parte dos problemas. “Por que ele tem 251 visitas e eu só tenho 15?”, “Será que eu escrevo mal?”, “Por que ela comenta o blog dele e não o meu?”, são perguntas recorrentes, das quais poucos fogem.

Eu fujo das perguntas por um motivo simples: eu fujo de blogs também. Eles ficam populares, e eu corro.

O motivo? Simples. Não gosto de como todos ficam amigos enquanto comentam. Não gosto da sensação de falsa intimidade – ou mesmo da intimidade procurada. Não gosto da sensação de estar sendo perseguida por desconhecidos. Não gosto.

Em suma, meu blog é um diário aberto, é um diário que eu mostro pros amigos e que, por isso mesmo, pode conter inverdades e exageros. E é um blog disponível para desconehcidos, mas com tantos conhecimentos particularizados que um dia eles enchem o saco e desistem. Eu escrevo, sim, sobre o Flamengo (pra caramba), sobre o trabalho (demais), sobre os amigos (todos). Quem é vascaíno, quem não conhece a Petrobras e quem não participa de pelo menos dois círculos de amizades meus simultaneamente simplesmente não entende metade dos assuntos.

Mas eu escrevo principalmente para mim. E gosto da sensação de intimidade criada com meus amigos, os de verdade, não os angariados com o blog.

Porque, no final da história, eu escrevo tudo e qualquer coisa, tudo e mais um pouco, tenha acontecido ou não, seja verdade ou não. E só quem me conhece vai conseguir comentar os assuntos da maneira correta – seja para me mandar pastar, seja para dizer que não vai mais ler tantos posts sobre o Flamengo, seja para oferecer colo.

Os outros – aqueles que entram e falam “Legal seu blog! Entra no meu!” -, desses eu rio. Mas lamento não ter a força de vontade de entrar aleatoriamente em qualquer lugar para fazer propaganda. Porque, vocês sabem, a propaganda é a alma do negócio, e se depender dela, meus caros, no que me diz respeito este blog está fadado ao fracasso.

Ainda bem que temos o David e seus 20 leitores assíduos…
Eu sou territorialista. Estou presa à minha terra, resisto a mudanças, e meu fervor expansionista não é lá essas coisas. Se deixarem por minha conta, seremos nós e mais um punhado de leitores – fiéis, simpáticos e conhecidos, que daqui a uns 4 anos entrarão dando bom dia e perguntando pelos nossos filhos.

Deixo as grandes navegações com vocês. Eu cuido de nosso reino enquanto isso.
Afinal, quem falou que isso aqui era uma democracia?


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